Feeds:
Posts
Comentários

quebrado

   olha para seu reflexo no espelho e se pergunta como as coisas chegaram a esse ponto. passa as mãos no cabelo oleoso que cai por cima das orelhas enquanto tenta imaginar se as outras pessoas também veem a vida dele como um longa-metragem que dura mais que o esperado e faz com que os espectadores queiram se levantar e sair da sala de cinema antes do final da projeção. com uma tesoura sem fio – perdida a não sabe quanto tempo em uma gaveta de cosméticos – corta as mechas castanho claras uma a uma, sem se preocupar muito em manter os dois lados do rosto simétricos. na sua linha de raciocínio, o importante é agir agora, sem se importar com o resultado. coloca em cada fio a insatisfação que sente com a própria imagem e com o rumo que sua vida amorosa tomou. o resultado é tão desgrenhado quanto o esperado.

   no vidro embaçado do box, escreve com o dedo um a um os nomes das antigas namoradas, da mais recente às mais antigas, e a duração de cada relacionamento. quando chega na sexta – seis meses, no verão de 2005 -, o primeiro nome volta a sumir, recoberto pelo vapor que sai do chuveiro. pensa por algum tempo no significado simbólico que não conseguir fazer aquela lista durar mais do que uns poucos segundos, até perceber o grande papel clichê que desempenha sentado de pernas cruzadas no chão de um banheiro molhado enquanto relembra decepções com a ponta dos dedos.

   desliga a torneira e se deixa ficar de pé enquanto a maior parte da água de seu corpo escorre para o dreno. não consegue se impedir de imaginar que sua disposição desce junto com aquele líquido transparente. depois, sente vergonha de si mesmo. olha novamente para o espelho acima da pia e vê o reflexo desfocado gerado pela película de água que se formou em toda a superfície. mesmo sem enxergar com clareza o próprio rosto, tem a certeza de estar assustador. a barba por fazer ainda pinga, deixando um rastro de água em seu peito e barriga até chegar ao chão. uma poça se forma lentamente a seus pés, mas não consegue reunir forças suficientes para sair do lugar.

   percebe que talvez seja esse o motivo. forma uma imagem mental de si mesmo, transbordando de algo que só pode definir como suas incertezas e inseguranças, afluindo de cada poro de seu corpo enquanto ele finca os pés no solo e se imobiliza. tudo que o aflige caminha por sua pele e forma um oceano em torno de si. na sua cabeça, tudo fica preto e é aí que consegue enxergar o que nunca o deixou ver com clareza. abre os olhos lentamente. o embaçado começa a sumir no meio do espelho, convergindo pouco a pouco para as bordas. olha para si mesmo e continua não gostando do que vê.

daqui pro futuro

dqp

   a última vez que a gente vê um lugar sempre traz sensações estranhas. todo mundo fala da dor de não ver mais uma pessoa, mas a gente acaba esquecendo dos lugares. uma casa que já não é mais sua, um prédio que não está de pé, um sitio que já não posso chamar de meu. eu lembro de ter olhado para uma estrada de terra com uma ponte de madeira velha em cima de um riacho meio seco e pensar que era a última vez que eu veria aquela paisagem. todo aquele verde e marrom gravados na minha retina. e eu não esqueço, eu nunca esqueci. de alguma forma, aquele lugar ainda existe, ainda é meu. mas só eu sei.

pois é

   pois é, aqui estamos nós. eu vou fazer cara de quem não vai dar uma má notícia mas no fundo você já sabe do que é que estamos falando. eu tento fingir, mas tem coisas que a gente simplesmente sabe. posso tentar esconder de toda forma possível que mesmo assim até as pessoas passando na rua vão conseguir decifrar em um estalar de dedos o que está prestes a acontecer.

   eu já passei da fase de chorar. me arrepender, ligar tarde da noite pedindo desculpas. coisa mais ridícula que já fiz foi ficar soluçando de desespero no telefone. eu achava que se eu sofresse o suficiente você entenderia. você ficaria com pena daquela voz sussurada e me daria tudo que eu queria. e olha que eu nunca pedi nada de mais. eu já passei da fase de acreditar que essas coisas mudam de um dia pro outro, e já me pego entrando naquela outra onde você acha que as coisas não mudam é nunca. não importa o quanto você pegue o mundo e o sacuda pelos ombros, as coisas não mudam.

   é difícil olhar no seu olho, porque eu sei o que você vai me pedir. eu conheço seus movimentos de cabeça, seus olhares perdidos no horizonte, seu jeito manso de falar que eu estou delirando. e eu aqui, nunca estive mais são, somando a mais b e constatando o que você finge não ver. pois é, não deu.

   hoje no rádio tocou a música que a gente dançou no casamento daquela sua amiga, sabe qual? aquela meio animadinha, mas que eu sempre achei um pouco triste. linda, mas triste. é uma que eu até comprei o cd depois só pra gente poder ouvir mais umas vezes. na época as pessoas ainda compravam cds, e eu lembro de ter achado uma perda de dinheiro porque o disco devia ter umas três músicas boas, no máximo. mas de qualquer forma acabou sendo um bom investimento, porque era uma delícia colocar aquelas três músicas pra tocar quando era sábado e a gente cismava de fazer algo de diferente no almoço. deve ser besteira, mas até arroz branco ficava gostoso ao som daqueles acordes. normal, mas gostoso.

   hoje eu acordei e lembrei que eu não tenho mais vinte anos. procurei nas caixas no fundo do armário por aquele cd, na esperança dele ainda existir. achei a capa, dentro de um caixa marrom com um fita crepe amarelada escrito “dela”. o plástico estava todo arranhado e vários dentes na parte de dentro estavam faltando, mas o disco não estava lá. hoje eu acordei e lembrei que as coisas não estão mais onde deveriam estar. não é nem questão de falar que eu não sabia o valor do que tinha até perder ou essas baboseiras de filme água com açúcar, porque eu sabia muito bem. o problema é esse: eu tenho completa consciência do que eu perdi. é lindo de falar, poético. lindo, mas triste.

   hoje eu passei muito tempo procurando por coisas que eu sei que não vou encontrar. algumas coisas simplesmente não existem para serem encontradas. é difícil, é trabalhoso, parece que não vai acabar nunca, mas depois de um tempo você se acostuma. as coisas voltam ao normal. não há grandes epifanias, não há coros empolgados entoando uma canção marcante. tudo volta ao normal. normal, e nada mais.

insônia

   eu fecho os olhos mas consigo sentí-los passando por mim. meus fantasmas se embolam nos fios dos meus cabelos enquanto eu caminho por essa casa vazia e me fazem sentir arrepios constantes. bem quando eu acho que eles se foram, voltam lembranças que me fazem subir nas pontas dos pés e gemer de angústia. há noites eu não sei o que é dormir. eu me enrolo na cama como um feto amedrontado, tentando fugir das coisas que me assombram. eu me fecho em mim mesmo, mas não consigo fechar meu pensamento. esses seres de vento gelado entram pelas minhas narinas e me fazem taquicárdico. eu perco o ar, eu perco as forças. sento na cama desesperado e esfrego os braços tentando provocar algum calor. eu preciso acender alguma chama em mim, eu preciso me fazer seguro. logo será manhã e tudo se esvairá. mas por enquanto é noite e eu tenho medo de acabar descobrindo que os fantasmas que me afobam são parte de quem eu me tornei, e que não há nada que eu possa fazer para mandá-los embora.

   agora já se passaram três anos e você ainda não está pronta. você costumava me dizer calma, vai dar tudo certo. e não deu. o mundo não parou de girar por nossa causa e não nasceram girassóis no peitoral da minha janela como eu queria. pode falar quantas vezes quiser que isso não é o mais importante mas eu não acredito. pra mim a única mudança foi a grama do jardim ter parado de crescer.

   há muito tempo você me irritava e eu pedia desculpas. ligava, mandava rosas brancas, ficava de joelhos e beijava seus pés encardidos. há muito tempo eu tenho fingido que esse tempo vai passar e que de repente as coisas mais belas do mundo vão chegar na minha porta dentro de uma caixinha do serviço de correios muito bem enrolada com fitas adesivas transparentes. mas não vão.

   já se passaram três anos desde que você me disse que um dia estaria pronta para mim e pra tudo que eu queria te oferecer. pronta para os meus abraços fora de hora e para as pausas entre as palavras. pronta para minhas mãos cheias de calos e para os monstros que habitam meus ouvidos. mas quando chega a hora da verdade, quando o apresentador velho e barbudo segura a maçaneta da porta que vai revelar tudo que faltava saber para minhas ruas ganharem nomes e o mundo parar de girar por nossa causa, você volta atrás. você volta atrás e eu caio em mim. não há fogos de artifício, não há tapinhas amigáveis nas costas, não há pacotes de balas multicoloridas em cima da mesa de jantar. a grama do jardim continua não crescendo.

   é engraçado como aqui a gente consegue ver o céu direitinho. fazia muito tempo que eu não olhava assim para cima e perdia a conta de quantos pontinhos luminosos apareciam no meu campo de visão. eu quero botar seu nome naquela estrela. aquela pequenininha ali no canto, brilhando de azul claro e chamando meu nome. eu consigo ouvi-la chamando meu nome. você consegue também?

   eu vou ficar aqui olhando cada detalhe seu, e quando a gente for lá pra dentro eu vou pegar meus dedos gelados e vou desenhar uma estrela nas suas costas. depois vou escrever “eu te desejo” e tentar te fazer adivinhar palavra por palavra. mais uma vez, mais devagar. você vai descobrir a frase toda já na quinta letra e vai virar de frente pra mim. estrelas vão estar nos seus olhos e vou descobrir logo que são os meus olhos refletidos nos seus. meus olhos molhados, suados de vontade de você.

   eu te quero como os astronautas querem as estrelas. eu te quero brilhando no meu céu e quero agora. desço minha mão fria pelas suas curvas, você se arrepia toda e suspira no meu ouvido. você tem nome de estrela e eu quero ser astronauta pra poder viajar nos relevos do seu corpo nu.