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   o cheiro de alho torrado invade toda a casa. cheiros são assim atrevidos, como uma mentira sorrateira contada ao pé do ouvido. os cheiros se perdem no ar, vão dançando em espirais invisíveis e entram em todos os cantos. vão se contorcendo pelas frestas dos armários, se esfregando nas fechaduras das portas e nos corrimãos das escadas. o cheiro de alho torrado entra em meu quarto e eu imagino mamãe preparando o almoço com seu avental listrado de amarelo e vermelho. o elástico perdeu o jeito de uns tempos pra cá, mas mamãe não larga do avental. deve ser por lembrança. guarda o avental como souvenir de um tempo passado ou algo do tipo. mamãe tem essa mania de pensar no passado como fossem lugares físicos. ela conta do natal de noventa e oito como quem narra a primeira visita a paris ou as férias em itacaré.

   ela limpa as mãos sujas no avental e sente que suas mãos delicadas passaram no torso musculoso de meu pai, e ela fica feliz. meu pai gostava de alho torrado, eu acho. ele gostava muito de nada e um pouco de tudo, na verdade. foi ele quem comprou o avental para mamãe, cansado de vê-la estragar blusas de malha com respingos de gordura quente. papai nunca teve noção de cores, então ele deve ter pedido ajuda a alguma vendedora para escolher o modelo. ou nem escolheu, pegou o primeiro da gôndola e levou para minha mãe. mamãe achou lindo e resmungou em voz baixa que amarelo e vermelho eram suas cores favoritas. eu espiava da sala de jantar e via mamãe rindo a toa. mamãe costumava rir a toa.

   depois que meu pai teve um derrame as coisas ficaram difíceis. ele mal falava, e quando falava não fazia sentido algum. mamãe chorava diariamente, e o arroz passou a ter gosto de lágrimas salgadas. passados três meses papai teve um engasgo durante o sono e morreu. morreu tranqüilamente, pelo que os médicos disseram. por causa dos fortes remédios para dores ele possivelmente nem notou nada que estava acontecendo e morreu dormindo. por um tempo eu tive medo de que minha mãe também deitasse para dormir e lá ficasse. como se ela e meu pai fossem duas baterias de um mesmo rádio-relógio e sem um o outro não funcionasse.

   a presença do meu pai passou a invadir a casa. eu via sua cara nos móveis da sala, sentia seu cheiro nas almofadas e ouvia sua voz reclamando da duração dos comerciais na tv. meu pai passou a me seguir e eu me sentia bem com sua presença. eu sentia-o em todo canto, esparramando-se nos tapetes e prensado dentro dos eletrodomésticos. ouvia sua voz em cada locutor de rádio e nas pessoas que ligavam para nossa casa. acho mesmo que meu pai aprendeu com as comidas de minha mãe a ser assim. de tanto observá-la cozinhando e de tanto sentir pela casa os cheiros refogados, passou a imitá-los.

   é meu pai que vem junto do cheiro de alho torrado invadindo meu quarto, me pondo de pé e me chamando para o almoço. meu pai se esgueirando pelas janelas, se dispersando nas toalhas de rosto dos banheiros e nos envolvendo. minha mãe grita a prontidão do almoço, desço as escadas correndo e nós três sentamos à mesa mais uma vez.

cartela de cores

carteladecores

   hoje eu acordei amarelado. hoje eu botei os pés para fora da cama e senti que meu dia ia ser bege, enferrujado, envelhecido. as folhas do arranjo ao lado da televisão despertaram secas. olhei procurando verde-limão e encontrei oliva.

   meu café foi ralo para combinar com o amarronzado do meu pijama desfiado. meus dentes ficaram pintados de ocre e deram o tom que o pó desbotado em meu rosto pedia. passei pelos meus cabelos um pente desdentado e vi cair alguns fios cor de chá. chá de camomila, chá de maracujá, chá de pano de chão. meus cabelos foram amarelo-manga, hoje são poeira-lavada. minhas bochechas cintilavam de vermelho-sangue. agora o que me resta são os coágulos dentro das artérias, o bonina-varize nas batatas das pernas.

   eu olhava o mundo através de azul-turquesa, esmeralda, olho-de-gato. hoje minhas lentes são desbotadas. verde-água, fralda-usada, córrego sujo. tudo era nítido, tudo era claro. agora desceu essa névoa, e essa neblina faz a pedra mais escarlate virar rosa-bebê. meus cabelos perderam a cor, meus olhos perderam a cor, meu café perdeu a cor.

   minhas unhas crescem sujas de terra e eu fico cada vez mais com essa cor desbotada de argila. minhas mãos ficam enrugadas de frio enquanto o fogo que sai da lareira é cinza. eu sento nessa poltrona encardida, estico os braços para ler as notícias. meu corpo reclama de toda essa cartela de cores que eu me tornei e não há nada que eu possa fazer. hoje eu acordei amarelado e cercado de folhas secas. hoje eu acordei seco e cercado de folhas amareladas.

   nem parece que já é outono. hoje o dia amanheceu cinza, como se o sol tivesse decidido não brilhar direito ou como se a noite tivesse escolhido durar um pouco mais que o tempo que lhe é devido. o dia acordou cinza e com gosto forte de café velho. a garrafa repousada sobre a mesinha da cozinha me enganou e eu dei um gole grande naquela bebida fria sem açúcar. soltei a xícara sem pensar, meu café ecoou pelo piso azulejado e agora minha coleção de seis peças ficou debilitada. não é que eu receba com freqüência as pessoas para um lanche de fim de tarde, mas nunca se sabe. de qualquer forma, agora preciso contar com um a menos. agora preciso contar os cacos no chão da cozinha, embalá-los na seção de classificados do jornal de ontem e jogá-los fora como se fossem um excremento qualquer. como se todos esses retalhos nunca tivessem sido uma xícara de café, como se essa fosse uma manhã chuvosa qualquer e nada disso importasse. hoje o dia acordou meio dormindo, e eu não consigo fazer força suficiente para acordá-lo. hoje o dia amanheceu com cor de papel de jornal, com jeito de notícias de ontem e com cheiro de café velho esparramado no chão da cozinha.

   você se lembra da primeira vez que a gente veio aqui? era inverno e você me obrigou a usar aquele moletom que eu odeio. eu quase escorreguei em uma pedra, desastrado como sempre, e você me segurou pelos ombros. nós tomamos café sentados no passeio e depois brincamos com um cachorro de rua. você sempre gostou de cachorros de rua.

   da primeira vez que a gente veio aqui eu ainda não tinha essas olheiras, eu trabalhava bem menos, eu tinha mais horas para dormir. não que a gente conseguisse dormir naquele frio capcioso, mas as horas estavam lá de qualquer forma. você me beijava os olhos de manhã antes de sairmos do banho e meu sono atrasado sumia. eu sinto muita falta desses seus beijos estalados.

   parece que faz uma eternidade desde aquele fim-de-semana. eu lembro de ter tido dores de barriga de tanto rir das caretas que você fazia. eu lembro de termos pedido cobertores extras na recepção e de termos acordado de manhã sem nada por cima dos nossos corpos. foi há uma eternidade mas eu ainda me lembro. eu nunca me esqueci.

   eu não sei você, mas eu lembro de cada detalhe. das rendas soltando nas cortinas do quarto, dos itens nos menus dos restaurantes, dos seus joelhos e das palmas das suas mãos. eu preciso me agarrar a isso. quando tudo o que se têm são lembranças, o que fazer? você se foi há muito tempo, e eu sinto falta de tudo. dos cachorros, dos banhos, das cobertas. eu sinto falta de você. e de mim.

   eu não preciso mais de você. foi isso que ela disse, ou algo do tipo. não faz muita diferença. eu não te quero mais, só sinto desprezo por você, a gente não conversa como antigamente. é tudo a mesma coisa. era dezembro e chovia desesperadamente, as janelas ficavam constantemente sujas e o piso da sala de jantar sempre alagava. eu tinha comprado um presente de natal, uma caixinha vermelha com um grande laço roxo e um poeminha escrito às pressas. pra nada. não tive tempo de tirar o embrulho do armário antes que ela me lançasse aquela feição de quem passou por uma maratona de exercícios e não aguenta mais.

   o que me enfeza é que ela parece esquecer. a memória é curta pra lembrar da tarde espantosamente longa de abril quando eu entrei no quarto e vi ela com um outro homem. assim, deitado em cima dela, como se ela fosse um sofá de dois lugares em um apartamento de copacabana com vista para o mar. ela com aquele olhar infantil pedindo perdão por ter quebrado meu vaso de porcelana favorito e eu fingindo que não era nada de mais. nunca é nada de mais. eu sempre aguentando as mesmas mesquinhezas, a minha falta de bom senso contra a falta de pudor dela. nos dias seguintes eu ficava deitado de costas na rede da varanda imaginando suas pernas abertas e um outro qualquer que gritava de felicidade.

   será que eu sempre fui tão submisso? era eu quem tocava pour elise no piano enquanto ela descascava laranjas sentada no tapete. as frutas eram só dela, a música era de nós dois e de quem mais quisesse ouvir. eu perguntava se ela gostava e tudo o que ela fazia era acenar que sim. nenhum comentário, nenhum elogio. só um balançar de cabeça que não significava nada de mais. o barulho irritante da faca atritando contra a casca grossa das laranjas e minhas notas secas tentando se fazer ouvir. ela nunca ouviu nada que eu disse.

   quando o inverno chegou eu já conseguia enganar minha memória. eu agora sei que eu sempre fui quieto demais, comedido demais. não que isso justifique a cara lavada que ela fazia quando eu perguntava de quem eram os cheiros no pescoço dela ou de onde tinham saído aqueles colares novos em folha. eu relevava essas coisas porque nessa época eu ainda achava que sentir formigamentos nas pontas do pés e ouvir o próprio estômago roncar eram sintomas de amor. sintomas, como em uma doença.

   hoje eu sei que eu estava doente. eu via beleza nas dobradiças enferrujadas dos armários da cozinha e na cama velha sem lençol. quem eu tentava enganar? minhas costas doíam pelo peso imaginário que eu ja me cansava de carregar. eu criava histórias para mascarar a verdade. um engano para o homem nu, uma desatenção nas músicas tocadas, uma alergia constante ao encostar em mim.

   eu não queria que ela continuasse comigo. o que eu queria de verdade é que eu tivesse tido a coragem de juntar minhas coisas e avisar com a cara tranquila de quem diz que colocou as roupas sujas para lavar que meu táxi estava me esperando na portaria. melhor, deveria ter mandado-a pegar suas coisas e ir para qualquer lugar. encontrar sua própria copacabana longe daqui, ou qualquer coisa do tipo. a questão é que eu jamais teria essa coragem. então eu continuo tocando o piano e escrevendo poeminhas apressados nos cartões de natal, porque é isso que eu sei fazer. eu sempre fui assim tão submisso.

   faz muito tempo desde a última vez que a gente conversou. eu não sei se foi a última vez ou uma das últimas, mas eu lembro de um final de semana que a gente passou na casa da sua mãe e choveu granizo. eu fiquei arrasado por causa do meu carro novo estacionado na rua e você tentou me consolar com seus lábios. você tinha gosto de coca-cola e sorvete de flocos. gosto de sobremesa. você me disse que eu não devia ficar sofrendo sem saber, que quando essa chuva passasse a gente se preocupava com isso. eu lembro de ter te olhado e procurado no seu rosto qualquer coisa que me fizesse sentir menos preocupado, mas você estava triste. você não estava triste pelo carro, triste pela chuva ou pela doença do seu pai. você estava triste consigo mesma, e eu conseguia ver isso. mas eu não sabia o que fazer. como virar o jogo? como passar de consolado a consolador? eu não conseguia achar uma brecha para te dar um abraço apertado e falar que tudo ia ficar bem sem parecer ridículo. eu não conseguia te olhar nos olhos e falar mais uma vez que você é a coisa mais linda do mundo e que eu adoro quando você rola na cama à noite e esfrega seus pés nos meus por debaixo do cobertor.

   pouco tempo depois você foi embora. você se levantou à noite e eu fiquei deitado, meio acordado meio dormindo. eu pensando que você tinha ido buscar um copo de água gelada na cozinha, ou que já era de manhã e você queria tomar um banho antes de sair para o trabalho. cochilei de novo e acordei com a casa vazia. vazia de tudo. vazia de sons, vazia de gente, vazia de cheiros. eu não sentia o cheiro do seu xampu misturado com o vapor quente que sai do banheiro depois que você se banha. eu não sentia o seu perfume espalhado nos arredores da cama. eu não sentia nada, nem o cheiro da torrada que você sempre deixa queimar nem do café recém-passado. na mesa da cozinha um bilhete meio sem graça, pedindo desculpas e falando que ia voltar, que a culpa não era minha. eu não quis acreditar na hora, mas eu sabia que a letra era sua. os pingos redondos nos is e as maiúsculas cheias de voltas. mesmo na hora de partir a sua letra era bonita.

   naquele dia sua mãe ligou querendo falar com você e eu menti que você já estava dormindo. eu não sei se ela acreditou, porque era antes das nove da noite e você sempre foi de dormir tarde. mas ela fingiu que acreditou. vai ver ela sabia que você tinha me deixado e queria ver como eu tinha reagido. se foi assim, ela percebeu que eu não quis acreditar. eu ainda não quero acreditar, mas fica cada vez mais difícil. ontem eu comprei uma caixa do seu cereal favorito e coloquei dentro do armário. a embalagem falava sobre uma surpresinha, algum boneco de um filme novo de desenho que você vai gostar. aí quando você voltar pra casa e toda essa tormenta passar, a gente pode abrir o pacote com os dentes e colocar o brinquedo na mesa de cabeceira da nossa cama. como um souvenir desses tempos ruins que já se foram. como uma marca deixada por um raio em uma árvore durante um temporal. eu não sei chorar, você sabe. eu não chorei quando meus pais morreram, eu não vou chorar agora. mas eu preciso de você. há dias eu não sei o que é comida de verdade e meus sonhos parecem se misturar com as migalhas de pão que ficaram no ralo da pia. a culpa não foi minha, você mesma disse. eu só quero que você volte logo para casa. eu preciso desesperadamente voltar a viver.

   a verdade é que nós sempre te evitamos. talvez sua mãe nunca tenha te contado, mas a gente nunca quis que você existisse. eu sei que ela não teve muito tempo, não precisa ficar repetindo. é difícil o suficiente estar morrendo com uma filha pequena ao lado para perder tempo falando de anticoncepcionais, era o que ela me falava. mas isso não muda nada. perdi a conta de quantas vezes fui à farmácia comprar pílulas e preservativos. nós não queríamos você. nós não queríamos criança nenhuma. a gente só queria um pouco de prazer. se continuássemos naquela de só viver o suficiente para não morrer, a gente enlouquecia.

   nossa vida precisava ser mais do que contas de multiplicação e capitais de países europeus. a gente tinha que se acalmar. é, desestressar. como você preferir. a coisa é que esse nome não existia na época. existia a sensação de impotência, o medo de ser só mais um registro no cartório da cidade, mas esse termo científico só veio depois. aí agora ficam falando que está na moda ficar estressado, sem pensarem que esse povo já vivia moribundo a tempo demais. quando você ouvir essas coisas pode levantar alto o braço e gritar que você é filha do estresse. porque é verdade, só por isso você existe. se não fosse a vontade de sair do marasmo, você não estaria aqui agora falando comigo. você não existiria.

   vai me dizer que você nunca parou para pensar nisso? seu nome é igual ao da sua avó por preguiça. a gente não se importava o suficiente para escolher um nome. para satisfazer o ego da minha sogra e preencher nossa falta de interesse, ficou assim. nomear aquela criança era admitir sua existência, e isso a gente não podia fazer. isso a gente nunca pode fazer. por isso você praticamente só via a gente nos finais de semana. por isso sempre te ensinamos a chamar a gente pelo primeiro nome, nunca por pai e mãe. por isso a gente nunca foi a uma reunião de colégio. por isso… está bem, você já entendeu. eu sei.

   não é caso de chorar. eu só quero que você saia e vá viver. porque eu fico aqui morrendo uma hora de cada vez e você fica ao meu lado como um cachorro de rua. a vida está aí para ser vivida, pelo amor de deus. eu não me arrependo das coisas que eu te conto, mas só digo para não fazer o mesmo. eu fui um otário egocêntrico e veja onde isso me trouxe. sua mãe morreu cedo e eu fiquei amargando os anos em uma casa vazia e cinza. você me odeia e seus filhos acham que eu estou morto.

   talvez eu esteja morto. se bobear eu sempre estive morto e nunca reparei. e também por isso tudo foi como foi. sempre fiquei com tanto medo de não sentir nada que me esqueci como era sentir qualquer coisa. se eu pudesse viver de novo, faria tudo igual, sempre fui cabeça dura. a verdade é que eu sempre me evitei.

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