faz muito tempo desde a última vez que a gente conversou. eu não sei se foi a última vez ou uma das últimas, mas eu lembro de um final de semana que a gente passou na casa da sua mãe e choveu granizo. eu fiquei arrasado por causa do meu carro novo estacionado na rua e você tentou me consolar com seus lábios. você tinha gosto de coca-cola e sorvete de flocos. gosto de sobremesa. você me disse que eu não devia ficar sofrendo sem saber, que quando essa chuva passasse a gente se preocupava com isso. eu lembro de ter te olhado e procurado no seu rosto qualquer coisa que me fizesse sentir menos preocupado, mas você estava triste. você não estava triste pelo carro, triste pela chuva ou pela doença do seu pai. você estava triste consigo mesma, e eu conseguia ver isso. mas eu não sabia o que fazer. como virar o jogo? como passar de consolado a consolador? eu não conseguia achar uma brecha para te dar um abraço apertado e falar que tudo ia ficar bem sem parecer ridículo. eu não conseguia te olhar nos olhos e falar mais uma vez que você é a coisa mais linda do mundo e que eu adoro quando você rola na cama à noite e esfrega seus pés nos meus por debaixo do cobertor.
pouco tempo depois você foi embora. você se levantou à noite e eu fiquei deitado, meio acordado meio dormindo. eu pensando que você tinha ido buscar um copo de água gelada na cozinha, ou que já era de manhã e você queria tomar um banho antes de sair para o trabalho. cochilei de novo e acordei com a casa vazia. vazia de tudo. vazia de sons, vazia de gente, vazia de cheiros. eu não sentia o cheiro do seu xampu misturado com o vapor quente que sai do banheiro depois que você se banha. eu não sentia o seu perfume espalhado nos arredores da cama. eu não sentia nada, nem o cheiro da torrada que você sempre deixa queimar nem do café recém-passado. na mesa da cozinha um bilhete meio sem graça, pedindo desculpas e falando que ia voltar, que a culpa não era minha. eu não quis acreditar na hora, mas eu sabia que a letra era sua. os pingos redondos nos is e as maiúsculas cheias de voltas. mesmo na hora de partir a sua letra era bonita.
naquele dia sua mãe ligou querendo falar com você e eu menti que você já estava dormindo. eu não sei se ela acreditou, porque era antes das nove da noite e você sempre foi de dormir tarde. mas ela fingiu que acreditou. vai ver ela sabia que você tinha me deixado e queria ver como eu tinha reagido. se foi assim, ela percebeu que eu não quis acreditar. eu ainda não quero acreditar, mas fica cada vez mais difícil. ontem eu comprei uma caixa do seu cereal favorito e coloquei dentro do armário. a embalagem falava sobre uma surpresinha, algum boneco de um filme novo de desenho que você vai gostar. aí quando você voltar pra casa e toda essa tormenta passar, a gente pode abrir o pacote com os dentes e colocar o brinquedo na mesa de cabeceira da nossa cama. como um souvenir desses tempos ruins que já se foram. como uma marca deixada por um raio em uma árvore durante um temporal. eu não sei chorar, você sabe. eu não chorei quando meus pais morreram, eu não vou chorar agora. mas eu preciso de você. há dias eu não sei o que é comida de verdade e meus sonhos parecem se misturar com as migalhas de pão que ficaram no ralo da pia. a culpa não foi minha, você mesma disse. eu só quero que você volte logo para casa. eu preciso desesperadamente voltar a viver.





