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   eu não preciso mais de você. foi isso que ela disse, ou algo do tipo. não faz muita diferença. eu não te quero mais, só sinto desprezo por você, a gente não conversa como antigamente. é tudo a mesma coisa. era dezembro e chovia desesperadamente, as janelas ficavam constantemente sujas e o piso da sala de jantar sempre alagava. eu tinha comprado um presente de natal, uma caixinha vermelha com um grande laço roxo e um poeminha escrito às pressas. pra nada. não tive tempo de tirar o embrulho do armário antes que ela me lançasse aquela feição de quem passou por uma maratona de exercícios e não aguenta mais.

   o que me enfeza é que ela parece esquecer. a memória é curta pra lembrar da tarde espantosamente longa de abril quando eu entrei no quarto e vi ela com um outro homem. assim, deitado em cima dela, como se ela fosse um sofá de dois lugares em um apartamento de copacabana com vista para o mar. ela com aquele olhar infantil pedindo perdão por ter quebrado meu vaso de porcelana favorito e eu fingindo que não era nada de mais. nunca é nada de mais. eu sempre aguentando as mesmas mesquinhezas, a minha falta de bom senso contra a falta de pudor dela. nos dias seguintes eu ficava deitado de costas na rede da varanda imaginando suas pernas abertas e um outro qualquer que gritava de felicidade.

   será que eu sempre fui tão submisso? era eu quem tocava pour elise no piano enquanto ela descascava laranjas sentada no tapete. as frutas eram só dela, a música era de nós dois e de quem mais quisesse ouvir. eu perguntava se ela gostava e tudo o que ela fazia era acenar que sim. nenhum comentário, nenhum elogio. só um balançar de cabeça que não significava nada de mais. o barulho irritante da faca atritando contra a casca grossa das laranjas e minhas notas secas tentando se fazer ouvir. ela nunca ouviu nada que eu disse.

   quando o inverno chegou eu já conseguia enganar minha memória. eu agora sei que eu sempre fui quieto demais, comedido demais. não que isso justifique a cara lavada que ela fazia quando eu perguntava de quem eram os cheiros no pescoço dela ou de onde tinham saído aqueles colares novos em folha. eu relevava essas coisas porque nessa época eu ainda achava que sentir formigamentos nas pontas do pés e ouvir o próprio estômago roncar eram sintomas de amor. sintomas, como em uma doença.

   hoje eu sei que eu estava doente. eu via beleza nas dobradiças enferrujadas dos armários da cozinha e na cama velha sem lençol. quem eu tentava enganar? minhas costas doíam pelo peso imaginário que eu ja me cansava de carregar. eu criava histórias para mascarar a verdade. um engano para o homem nu, uma desatenção nas músicas tocadas, uma alergia constante ao encostar em mim.

   eu não queria que ela continuasse comigo. o que eu queria de verdade é que eu tivesse tido a coragem de juntar minhas coisas e avisar com a cara tranquila de quem diz que colocou as roupas sujas para lavar que meu táxi estava me esperando na portaria. melhor, deveria ter mandado-a pegar suas coisas e ir para qualquer lugar. encontrar sua própria copacabana longe daqui, ou qualquer coisa do tipo. a questão é que eu jamais teria essa coragem. então eu continuo tocando o piano e escrevendo poeminhas apressados nos cartões de natal, porque é isso que eu sei fazer. eu sempre fui assim tão submisso.

   faz muito tempo desde a última vez que a gente conversou. eu não sei se foi a última vez ou uma das últimas, mas eu lembro de um final de semana que a gente passou na casa da sua mãe e choveu granizo. eu fiquei arrasado por causa do meu carro novo estacionado na rua e você tentou me consolar com seus lábios. você tinha gosto de coca-cola e sorvete de flocos. gosto de sobremesa. você me disse que eu não devia ficar sofrendo sem saber, que quando essa chuva passasse a gente se preocupava com isso. eu lembro de ter te olhado e procurado no seu rosto qualquer coisa que me fizesse sentir menos preocupado, mas você estava triste. você não estava triste pelo carro, triste pela chuva ou pela doença do seu pai. você estava triste consigo mesma, e eu conseguia ver isso. mas eu não sabia o que fazer. como virar o jogo? como passar de consolado a consolador? eu não conseguia achar uma brecha para te dar um abraço apertado e falar que tudo ia ficar bem sem parecer ridículo. eu não conseguia te olhar nos olhos e falar mais uma vez que você é a coisa mais linda do mundo e que eu adoro quando você rola na cama à noite e esfrega seus pés nos meus por debaixo do cobertor.

   pouco tempo depois você foi embora. você se levantou à noite e eu fiquei deitado, meio acordado meio dormindo. eu pensando que você tinha ido buscar um copo de água gelada na cozinha, ou que já era de manhã e você queria tomar um banho antes de sair para o trabalho. cochilei de novo e acordei com a casa vazia. vazia de tudo. vazia de sons, vazia de gente, vazia de cheiros. eu não sentia o cheiro do seu xampu misturado com o vapor quente que sai do banheiro depois que você se banha. eu não sentia o seu perfume espalhado nos arredores da cama. eu não sentia nada, nem o cheiro da torrada que você sempre deixa queimar nem do café recém-passado. na mesa da cozinha um bilhete meio sem graça, pedindo desculpas e falando que ia voltar, que a culpa não era minha. eu não quis acreditar na hora, mas eu sabia que a letra era sua. os pingos redondos nos is e as maiúsculas cheias de voltas. mesmo na hora de partir a sua letra era bonita.

   naquele dia sua mãe ligou querendo falar com você e eu menti que você já estava dormindo. eu não sei se ela acreditou, porque era antes das nove da noite e você sempre foi de dormir tarde. mas ela fingiu que acreditou. vai ver ela sabia que você tinha me deixado e queria ver como eu tinha reagido. se foi assim, ela percebeu que eu não quis acreditar. eu ainda não quero acreditar, mas fica cada vez mais difícil. ontem eu comprei uma caixa do seu cereal favorito e coloquei dentro do armário. a embalagem falava sobre uma surpresinha, algum boneco de um filme novo de desenho que você vai gostar. aí quando você voltar pra casa e toda essa tormenta passar, a gente pode abrir o pacote com os dentes e colocar o brinquedo na mesa de cabeceira da nossa cama. como um souvenir desses tempos ruins que já se foram. como uma marca deixada por um raio em uma árvore durante um temporal. eu não sei chorar, você sabe. eu não chorei quando meus pais morreram, eu não vou chorar agora. mas eu preciso de você. há dias eu não sei o que é comida de verdade e meus sonhos parecem se misturar com as migalhas de pão que ficaram no ralo da pia. a culpa não foi minha, você mesma disse. eu só quero que você volte logo para casa. eu preciso desesperadamente voltar a viver.

   a verdade é que nós sempre te evitamos. talvez sua mãe nunca tenha te contado, mas a gente nunca quis que você existisse. eu sei que ela não teve muito tempo, não precisa ficar repetindo. é difícil o suficiente estar morrendo com uma filha pequena ao lado para perder tempo falando de anticoncepcionais, era o que ela me falava. mas isso não muda nada. perdi a conta de quantas vezes fui à farmácia comprar pílulas e preservativos. nós não queríamos você. nós não queríamos criança nenhuma. a gente só queria um pouco de prazer. se continuássemos naquela de só viver o suficiente para não morrer, a gente enlouquecia.

   nossa vida precisava ser mais do que contas de multiplicação e capitais de países europeus. a gente tinha que se acalmar. é, desestressar. como você preferir. a coisa é que esse nome não existia na época. existia a sensação de impotência, o medo de ser só mais um registro no cartório da cidade, mas esse termo científico só veio depois. aí agora ficam falando que está na moda ficar estressado, sem pensarem que esse povo já vivia moribundo a tempo demais. quando você ouvir essas coisas pode levantar alto o braço e gritar que você é filha do estresse. porque é verdade, só por isso você existe. se não fosse a vontade de sair do marasmo, você não estaria aqui agora falando comigo. você não existiria.

   vai me dizer que você nunca parou para pensar nisso? seu nome é igual ao da sua avó por preguiça. a gente não se importava o suficiente para escolher um nome. para satisfazer o ego da minha sogra e preencher nossa falta de interesse, ficou assim. nomear aquela criança era admitir sua existência, e isso a gente não podia fazer. isso a gente nunca pode fazer. por isso você praticamente só via a gente nos finais de semana. por isso sempre te ensinamos a chamar a gente pelo primeiro nome, nunca por pai e mãe. por isso a gente nunca foi a uma reunião de colégio. por isso… está bem, você já entendeu. eu sei.

   não é caso de chorar. eu só quero que você saia e vá viver. porque eu fico aqui morrendo uma hora de cada vez e você fica ao meu lado como um cachorro de rua. a vida está aí para ser vivida, pelo amor de deus. eu não me arrependo das coisas que eu te conto, mas só digo para não fazer o mesmo. eu fui um otário egocêntrico e veja onde isso me trouxe. sua mãe morreu cedo e eu fiquei amargando os anos em uma casa vazia e cinza. você me odeia e seus filhos acham que eu estou morto.

   talvez eu esteja morto. se bobear eu sempre estive morto e nunca reparei. e também por isso tudo foi como foi. sempre fiquei com tanto medo de não sentir nada que me esqueci como era sentir qualquer coisa. se eu pudesse viver de novo, faria tudo igual, sempre fui cabeça dura. a verdade é que eu sempre me evitei.

homemquefazaschuvas

   ontem eu sonhei que eu era o homem que faz as chuvas. eu tinha uma barba longa e cinza. não cinza poeira ou cinza muro chapiscado, eu tinha as barbas cinza cor de nuvem pesada que precede a tempestade – daquelas que te fazem se arrepender amargamente de ter esquecido o guarda-chuva dependurado na estante da sala de estar. meus fios cinzentos desciam caramujeleantes se enroscando uns nos outros e minha barba ia se avolumando como um pedaço de miolo de pão em água fresca. os fios inclinados e contorcidos me rodeavam como se eu fosse um deus grego envolto em fumaça.

   de toda a confusão de fios brotavam minhas duas mãos esquálidas. os ossos eram iguais aos de caveiras esquecidas em covas rasas, amarelados e corroídos pelo tempo. eu tinha unhas longas que não acabavam mais e brilhavam forte de azul acinzentado. a claridade ofuscava meus olhos e eu tinha que piscar com calma para controlar a entrada de luz. tentei bater as mãos e experimentar um pouco do poder que me fora dado. apliquei força demais e o estrondo quase me tira toda a audição. o eco fez seu papel e eu ouvi minhas palmas retumbarem ao longe, sabe-se lá onde. aos poucos peguei o ritmo das batidas, fazendo as coisas ficarem mais interessantes. minhas unhas tomaram vida própria e se envolveram nos fios de minha barba infinita. em pouco todo meu corpo brilhava periodicamente, espalhando flashes de luz de um lado para o outro. eu era como um astro cadente no auge de sua iluminação, e era bom me sentir assim. era bom faiscar e fazer soar as trovoadas ensurdecedoras.

   quando todo meu corpo entrou no mesmo estado de animação, eu comecei a chorar. sem motivo aparente, eu simplesmente chorava como chora uma criança que precisa desesperadamente dos seios fartos da mãe. as lágrimas desciam pelo meu corpo causando arrepios e criando rios inusitados. meu choro ficava mais e mais intenso, e a cada gota que caía um fio de minha barba se soltava. a dor me dava cólicas incontroláveis e meus soluços aumentaram. eram cada vez mais e mais gotas por segundo, molhando minha alma e lavando meu corpo, escorrendo pelos meus braços nus e pingando pelas pontas dos dedos.

   perdi a noção do tempo, e de repente a dor parou. eu me sentia completo, limpo, puro. meu choro cessou e meus olhos foram lentamente se adequando à luz do dia. olhei para baixo e não havia mais barba. minhas mãos tinham unhas aparadas e transparentes. apalpei o rosto com cuidado e senti minha pele lisa como a de um bebê recoberto em talco. meus dedos eram carnudos e esbranquiçados. do meu pescoço pendia um roupão de um branco absurdamente acolhedor. cercando-me e envolvendo-me, o roupão cobria meu corpo, seguindo meus movimentos como uma grinalda arrastada por uma noiva em dia de festa. debaixo de mim, colinas e vales e cidades molhados de minhas lágrimas.

   acordei com a luz do sol no quarto queimando minha retina. passei as mãos no rosto e senti meus fios de barba que começavam a apontar: daqui a algumas semanas teremos chuva.

   hoje acordei com a criatividade inflamada. logo pela manhã tive ânsias incontroláveis e regurgitei meia-dúzia de palavras sem sentido no papel marrom que embrulha os pães. por volta do horário do almoço decidi preparar uma macarronada e o que me saiu foi um emaranhado de fios de lã colorida e almôndegas de algodão. claro, só me dei conta do engano enquanto servia o terceiro prato. à tarde pensei em assistir algum filme na televisão, mas perdi metade da história fazendo desenhos com o dedo na camada de poeira sobre o chão.

   já é de noite e eu espero estar melhor antes de querer pintar as paredes da sala com as mãos. se eu não estiver curado até amanhã de manhã, só vejo uma solução possível. será hora de fazer o temido chá com minha coleção de botões antigos e tomá-lo sem açúcar. isso se eu não tentar costurar retalhos de tecido nas palmas das minhas mãos e estragar todo o processo.

quinze minutos

   é terça-feira de manhã e você acorda com vontade de ir ao centro da cidade fazer compras. você se levanta, faz as coisas de sempre e sai de casa. pelo caminho você se lembra de como odeia dirigir e xinga todas as pessoas à sua volta. você não acha lugar para parar na rua, então você estaciona em um desses galpões que cobram quinze reais só para amassar o seu carro. você pega suas coisas, sua bolsa de couro de jacaré e seu casaco, e você sai para a calçada. do outro lado da afonso pena fica aquela loja onde uma amiga sua comprou arranjos de flores lindíssimos por uma mixaria. você para no passeio e espera o semáforo fechar. a luz dos pedestres fica verde e você caminha pelas faixas brancas paralelas pintadas no chão. alguém grita e você se vira a tempo de concluir que um ônibus avançara um sinal de transito. não um sinal qualquer. o seu sinal, o sinal que ficara vermelho para que você pudesse atravessar. nessas horas não dá para pensar muito. a conclusão à qual o cérebro chega vem rápido demais e seus músculos travam. o ônibus avança o sinal, alguém grita e você percebe que vai morrer. e aí você morre. sem pensar muito no assunto, só com as pupilas dilatadas e a cara ensanguentada fazendo sem querer uma estampa vermelha por cima das listras brancas. você morre e pronto.

   sua mãe chora, seu pai chora, seus irmãos choram. todos os seus vizinhos vêem a nota de falecimento no jornal e mandam flores. seu quarto parece os jardins suspensos da babilônia e você não pode vê-lo. não pode porque você está a sete palmos do chão. não pode porque agora as células receptoras de luz do seu olho estão servindo de jantar a meio milhão de bactérias. não que isso faça diferença. seu cérebro já parou de funcionar há muito tempo, e mesmo que suas células tivessem cheiro de novas você não veria nada. por isso também você não sente o cheiro das flores. por isso também você esta morta. seu chefe mandou uma grande coroa de rosas brancas, como se ele ligasse muito para tudo o que aconteceu. ele nunca soube que você tinha alergia a rosas brancas, e agora ele esta puto porque na próxima semana ele terá que fazer entrevistas para encontrar uma nova secretária. tudo isso porque a antiga secretária morreu. tudo isso porque agora você é um bife mal-passado enterrado em algum cemitério.

   seus pais não sabem disso, mas o motorista do ônibus que te atropelou não foi preso. na verdade, ele sequer foi demitido. a questão é: se na próxima vida você for um motorista do transporte publico, mantenha seu veiculo sempre cheio de passageiros. como uma lata de sardinhas. como o bom e velho coração de mãe. as empresas estão de saco cheio de motoristas humanitários. passageiros não são pessoas, são bilhetes de passagem. encha o ônibus e estaremos felizes, é assim que funciona. as empresas são sempre rígidas, o horário deve ser sempre o certo. se para chegar na hora no ponto final você tiver que avançar alguns sinais vermelhos e atropelar meia-dúzia de pedestres, que seja. só não atrapalhe o horário. é claro que isso só faz sentido se você nascer motorista. por enquanto é só bobagem, você está morta e os mortos não têm preocupações.

   se te consola saber, sua morte virou arte. você esparramada na afonso pena, sua mãe chorando em casa com o telefonema do hospital e alguém ficando rico. o mundo dos vivos funciona assim. você morre e seu sangue é muito vermelho. vermelho-vivo, na verdade. isso foi antes de você ser enterrada e perder a pele dos lábios por causa da umidade, se é que você se importa. acontece que a tragédia de uns é a conquista de outros. acontece que vermelho-sangue, preto-asfalto e branco-faixa-de-pedestre ficam muito bem juntos. em uma fotografia, pelo menos. imagine você morta e uma fratura craniana maravilhosa. imagine agora um fotógrafo que acontecera de estar logo atrás de você com a câmera na mão. junte isso tudo e um pouco de sal. você tem uma foto vencedora de prêmios. quando você acaba de morrer, seu rosto não fica imediatamente roxo, então as pessoas não têm tanto nojo assim. algumas vomitam, outras aplaudem. o fotografo enriquece às suas custas e sua mãe não sabe de nada. você não sabia de nada. essa foto não muda nada, sua mãe não para de soluçar e seu chefe não vai ficar feliz facilmente. os motoristas não serão demitidos e as pessoas continuarão sendo atropeladas. mas pelo menos você conseguiu ficar famosa. quer dizer, era isso que você sempre me disse que queria. fotos em revistas, ser uma celebridade, valer milhões. ai está, sonho alcançado. se você não estivesse com os ossos das pernas puídos, daria pulos de felicidade. seus quinze minutos de fama chegaram, ainda que póstumos. seus quinze minutos chegaram e você está morta. parabéns.

   já é segunda-feira, de novo. uma pessoa piscou e a semana toda passou voando sobre nossas cabeças. segunda-feira. meu relógio desperta às 7h, como de costume. às 7h14 o jornaleiro atira o periódico por cima das grades da casa. pelo jeito a segunda-feira não chegou só para mim. ligo a tevê enquanto a água para o café ferve no fogão de quatro bocas e a torradeira aquece os pães de ontem. as notícias são frescas, mas bem poderiam ser de sábado passado.

   tomo um banho frio. o aquecedor estragou faz uma semana e eu não tive tempo de dar uma olhada. a segunda-feira chegou tão rápido. lavo os cabelos com sabonete. parei de usar xampu há alguns anos. economizar, reduzir gastos. combina com a idéia de tomar banho gelado, eu acho. seco o corpo e limpo os ouvidos com a beirada da toalha. ponho o dentifrício branco na escova e tiro os restos de pão do meio dos dentes. o gosto da pasta se mistura com o do café e sinto como se eu tivesse preparado lavagem para o café-da-manhã. escovo a língua com força e a sensação ruim vai embora. faço a barba rápido demais e acabo cortando o rosto.

   todas as minhas cuecas são cinzas. facilita a organização nas gavetas. pego a primeira da pilha e visto por cima do corpo úmido. depois vêm as outras peças de roupa. a calça de linho, a blusa social, as meias e o sapato engraxado, nessa ordem. lembro que me esqueci de passar desodorante e tiro a blusa. minha ex-mulher dizia que eu estragava todas as camisas porque passava desodorante depois de estar vestido. pelo menos uma coisa eu aprendi com ela. recoloco a blusa, ponho a parte que sobra para dentro da calça, visto um cinto meio puído e dou um meio-sorriso para o espelho.

   o relógio de pulso apita oito horas e eu saio a passos largos. o ônibus das 8h07 já deve estar ficando cheio no ponto final. tranco as portas e chego ao passeio a tempo de perceber que esqueci a maleta de trabalho na mesinha da sala. volto correndo e xingo uma meia-dúzia de palavrões, depois me recrimino por ter feito isso. pego a pasta e volto para a rua. são 8h11 e a lotação já passou. vou para o ponto esperar a próxima saída e começo a imaginar o discurso do chefe sobre pontualidade. mas não faz mal. amanhã é segunda-feira e eu terei outra chance de colocar as coisas no eixo.

   uma sobrancelha levantada, é só isso o que eu preciso hoje. uma porra de uma cara fechada com ar de prédio colonial e eu estouro. daqui do décimo andar eu vejo boa parte da augusto de lima, como toda essa formigada que sai de uma toca e entra em outra. eu me pergunto se isso daqui também não seria uma toca, um esconderijo do resto da sociedade, e chego à conclusão que não importa. não sou pago para pensar.

   ao menos é isso que o subchefe fica repetindo aos berros quando alguém dá uma solução brilhante para algum problema que ele não tinha conseguido resolver. lógico que ele usa a idéia dos serviçais como se fosse sua. lógico que ninguém reclama. pelo jeito ninguém aqui pensa mesmo, não é só maneira de dizer. mas isso não importa. nada disso importa, na verdade.

   se algum secretário me pega escrevendo isso durante o horário de serviço, vai perguntar se eu sou débil mental ou o quê. a vontade que eu tenho é de responder que sim, chamar a mãe dele de meretriz e mandar ele enfiar a gravata do chefe na boca. por sorte ninguém me vê, senão seria byebye pra esse emprego, e aí as coisas iam piorar. a prestação do carro ia vencer e não demoraria a um engomadinho com cartão de visita em letras douradas chegar na porta do apartamento e botar minha cara a leilão. não literalmente, é claro. cobrador nenhum se arriscaria a depender dessa cara esculhambada para receber pagamento.

   pelo menos isso eu aprendi nesse emprego. em uma sala onde cada um não hesitaria em servir o fígado do outro como iguaria em um jantar de negócios, você aprende a não confiar na cara de ninguém. ano passado entrou aqui um rapaz simpático como há tempos eu não via. o olhar meigo, feições sutis e fala mansa. ninguém tinha medo dele, ninguém via nele um potencial filho da puta. ninguém menos eu. o aderbal do almoxarifado me chamava de grosso e insensível, falava que eu andava amargurado e precisava de uma dessas menininhas que ficam andando pela carijós com vestido curto e blusa decotada. numa quinta-feira o novato não foi trabalhar. duas semanas depois, alguém descobriu que ele agora fora encarregado das finanças do chefe. o cargo era pra ser do batista, que trabalha há quinze anos nesse moquifo e nunca foi promovido. era pra ser mas não foi. e não foi porque o batista é um trouxa. foi confiar na expressão de anjinho barroco que o moleque tinha e ele lhe apunhalou o lombo. taí, ninguém me deu crédito por não confiar no cara.

   na verdade, ninguém falou mais sobre o assunto. aqui reina a idéia de que as coisas que existem são palpáveis. como ninguém fala do ocorrido, pra todos os efeitos é como se nunca tivesse acontecido. é a mesma lógica que o figueira usou quando pendurou uma cruz de madeira velha em cima da porta de entrada e disse que agora deus estava perto de nós. eu ia perguntar que raio de lógica isso tinha, pois pra mim uma meleca de um toco de madeira só me salvaria se eu tivesse comido um grande bife de frango no almoço e precisasse de algo para palitar os fiapos nos meus dentes. mas deixei pra lá, ele ia vir com aquela palhaçada de amor e religião que sempre me dá vontade de arranhar as unhas em um quadro-negro recém-polido enquanto todas as pessoas dão saltos triplos do alto de edifício maletta. qualquer coisa menos esse som. qualquer coisa menos encarar a realidade.

   agora um cara careca com barba de papai noel comunista pede licença enquanto arrasta minha mesa para um canto da sala que cheira a cartas sem resposta e a uma cópia da constituição de 89 que nunca foi lida. explica que vai colocar uma película escura nas janelas, dessas que existem nas cozinhas dos restaurantes da afonso pena para que você não veja a barata que vem misturada na sua sopa de legumes ou o rato que passeia nas prateleiras entupidas de panelas e frigideiras oxidadas. eu não tenho interesse em ouvir, mas o careca parece determinado em me contar que essa é mais uma estratégia do chefe para aumentar a produção da equipe, e que estudos de uma universidade americana indicam que funcionários que olham muito à janela produzem menos. se você não vê a vida lá fora, significa que ela não está lá. nenhum empregado questiona essa decisão, e há sempre um ou dois babacas que sequer vão perceber a mudança. vai ver aqui realmente ninguém precisa pensar.

   outro dia vi em um canal da tevê aberta um documentário que mostrava os peixes cegos das cavernas brasileiras. com tudo escuro, a visão não é necessária e os olhos atrofiam. talvez com esses vidros pretos os meus olhos agora também parem de funcionar, como se eu fosse uma tilápia velha que desaprendeu a ver. em pouco eu vou esquecer que esse é o décimo andar e qual o nome da avenida lá embaixo. talvez eu nem lembre mais que há uma avenida lá. as coisas só existem quando são visíveis. e aí que eu fico puto.

   já não há mais rua, já não se vêem os pedestres e nem a esquina com a rio de janeiro logo na frente. só o que existe é essa vontade de espatifar o tampo dessa mesa de compensado e sentir os pedaços pontiagudos de madeira incrustados no verso da minha mão, o sangue escorrendo e desenhando pequenos mosaicos no chão, tudo isso sob o olhar vigilante da cruz velha. quem sabe assim eu volte a me sentir mais gente e menos peixe nesse cardume desengonçado a dez andares do chão.

   a luz piscou três vezes, de novo. alguém precisa trocar logo essa lâmpada, antes que eu enlouqueça de vez. eles já acham que eu tenho algo errado só por estar nesse lugar, e se eu começar a ter esses ataques de paranóia a minha situação só vai piorar. sempre tive essa mania de contar as coisas, de notar cada detalhe. se só por isso me tomam como louco, imagino o que farão se daqui para frente eu fechar os olhos e balançar a cabeça, chamando essa luminária dos piores adjetivos que conheço.

   cadê meu remédio, cara? essa gente daqui não liga para nada. a minha cabeça parece querer explodir a qualquer segundo, e ninguém pode me dar uma mão. nenhuma pílula milagrosa lançada recentemente, nenhuma infusão com folhas amazônicas. imagino a cena: meu crânio implodindo, cada caco de osso cravado em um pedaço diferente da parede, o sangue pingando e o resto do meu corpo desfalecendo de tanto rir. ah, eu rio mesmo. essas nossas vidas tragicômicas me divertem de tal modo que substâncias ilícitas jamais conseguirão. e eu gargalho, sem saber mais se dentro da minha imaginação ou também por fora. aí eu sou o próprio paradoxo do mundo, com o caos enfiado na cabeça e tudo ao redor tão tranqüilo. um pássaro pia alegremente no jardim. o som entra pelas gradezinhas e atinge meus ouvidos como se fosse a pura agonia de viver e morrer. eu tento pensar em qualquer outra coisa, mas é difícil.

   se no comprimento o chão tem vinte ladrilhos e doze na largura, são duzentos e quarenta quadrados de cerâmica branca que me rodeiam. esse pássaro deve ser branco também. só pode, cândido como esse quarto e aflitivo da mesma maneira. eu e o pássaro, cópias disformes do mesmo papel carbono, sujos e imperfeitos. habitamos cada um sua respectiva gaiola. é o nosso universo que começa aqui e acaba logo ali. a única força é a cabeça, as idéias, o canto, as contas. duzentos e quarenta quadrados. com eles faço uma casa branca e nela vivo. puro, alvo, casto e claustro. o mundo me engaiola, minha loucura me liberta.

babel reinventada

despediu-se do marido e entrou no trem
- já agora fazia um frio napoleônico.
pelo assento à janela via bailarinas russas
dançando ao som de um candango ritmado.

jovens mocinhas germanas empunhavam
em uma mão cópias de maquiavélicos romances.
com a outra serviam a dondocas e proletários
o mais refinado vinho siciliano.

pela vidraça corriam florestas e cotocos,
na mesinha de chá jaz uma rosquinha americana.
ao lado, panfletos multilíngues bem coloridos.

conferiu o registro de identidade:
era mesmo nordestina – pelo jeito, só ela.
cá dentro (e lá fora), o mundo continua babel.

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