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pois é

   pois é, aqui estamos nós. eu vou fazer cara de quem não vai dar uma má notícia mas no fundo você já sabe do que é que estamos falando. eu tento fingir, mas tem coisas que a gente simplesmente sabe. posso tentar esconder de toda forma possível que mesmo assim até as pessoas passando na rua vão conseguir decifrar em um estalar de dedos o que está prestes a acontecer.

   eu já passei da fase de chorar. me arrepender, ligar tarde da noite pedindo desculpas. coisa mais ridícula que já fiz foi ficar soluçando de desespero no telefone. eu achava que se eu sofresse o suficiente você entenderia. você ficaria com pena daquela voz sussurada e me daria tudo que eu queria. e olha que eu nunca pedi nada de mais. eu já passei da fase de acreditar que essas coisas mudam de um dia pro outro, e já me pego entrando naquela outra onde você acha que as coisas não mudam é nunca. não importa o quanto você pegue o mundo e o sacuda pelos ombros, as coisas não mudam.

   é difícil olhar no seu olho, porque eu sei o que você vai me pedir. eu conheço seus movimentos de cabeça, seus olhares perdidos no horizonte, seu jeito manso de falar que eu estou delirando. e eu aqui, nunca estive mais são, somando a mais b e constatando o que você finge não ver. pois é, não deu.

   hoje no rádio tocou a música que a gente dançou no casamento daquela sua amiga, sabe qual? aquela meio animadinha, mas que eu sempre achei um pouco triste. linda, mas triste. é uma que eu até comprei o cd depois só pra gente poder ouvir mais umas vezes. na época as pessoas ainda compravam cds, e eu lembro de ter achado uma perda de dinheiro porque o disco devia ter umas três músicas boas, no máximo. mas de qualquer forma acabou sendo um bom investimento, porque era uma delícia colocar aquelas três músicas pra tocar quando era sábado e a gente cismava de fazer algo de diferente no almoço. deve ser besteira, mas até arroz branco ficava gostoso ao som daqueles acordes. normal, mas gostoso.

   hoje eu acordei e lembrei que eu não tenho mais vinte anos. procurei nas caixas no fundo do armário por aquele cd, na esperança dele ainda existir. achei a capa, dentro de um caixa marrom com um fita crepe amarelada escrito “dela”. o plástico estava todo arranhado e vários dentes na parte de dentro estavam faltando, mas o disco não estava lá. hoje eu acordei e lembrei que as coisas não estão mais onde deveriam estar. não é nem questão de falar que eu não sabia o valor do que tinha até perder ou essas baboseiras de filme água com açúcar, porque eu sabia muito bem. o problema é esse: eu tenho completa consciência do que eu perdi. é lindo de falar, poético. lindo, mas triste.

   hoje eu passei muito tempo procurando por coisas que eu sei que não vou encontrar. algumas coisas simplesmente não existem para serem encontradas. é difícil, é trabalhoso, parece que não vai acabar nunca, mas depois de um tempo você se acostuma. as coisas voltam ao normal. não há grandes epifanias, não há coros empolgados entoando uma canção marcante. tudo volta ao normal. normal, e nada mais.

insônia

   eu fecho os olhos mas consigo sentí-los passando por mim. meus fantasmas se embolam nos fios dos meus cabelos enquanto eu caminho por essa casa vazia e me fazem sentir arrepios constantes. bem quando eu acho que eles se foram, voltam lembranças que me fazem subir nas pontas dos pés e gemer de angústia. há noites eu não sei o que é dormir. eu me enrolo na cama como um feto amedrontado, tentando fugir das coisas que me assombram. eu me fecho em mim mesmo, mas não consigo fechar meu pensamento. esses seres de vento gelado entram pelas minhas narinas e me fazem taquicárdico. eu perco o ar, eu perco as forças. sento na cama desesperado e esfrego os braços tentando provocar algum calor. eu preciso acender alguma chama em mim, eu preciso me fazer seguro. logo será manhã e tudo se esvairá. mas por enquanto é noite e eu tenho medo de acabar descobrindo que os fantasmas que me afobam são parte de quem eu me tornei, e que não há nada que eu possa fazer para mandá-los embora.

   agora já se passaram três anos e você ainda não está pronta. você costumava me dizer calma, vai dar tudo certo. e não deu. o mundo não parou de girar por nossa causa e não nasceram girassóis no peitoral da minha janela como eu queria. pode falar quantas vezes quiser que isso não é o mais importante mas eu não acredito. pra mim a única mudança foi a grama do jardim ter parado de crescer.

   há muito tempo você me irritava e eu pedia desculpas. ligava, mandava rosas brancas, ficava de joelhos e beijava seus pés encardidos. há muito tempo eu tenho fingido que esse tempo vai passar e que de repente as coisas mais belas do mundo vão chegar na minha porta dentro de uma caixinha do serviço de correios muito bem enrolada com fitas adesivas transparentes. mas não vão.

   já se passaram três anos desde que você me disse que um dia estaria pronta para mim e pra tudo que eu queria te oferecer. pronta para os meus abraços fora de hora e para as pausas entre as palavras. pronta para minhas mãos cheias de calos e para os monstros que habitam meus ouvidos. mas quando chega a hora da verdade, quando o apresentador velho e barbudo segura a maçaneta da porta que vai revelar tudo que faltava saber para minhas ruas ganharem nomes e o mundo parar de girar por nossa causa, você volta atrás. você volta atrás e eu caio em mim. não há fogos de artifício, não há tapinhas amigáveis nas costas, não há pacotes de balas multicoloridas em cima da mesa de jantar. a grama do jardim continua não crescendo.

   é engraçado como aqui a gente consegue ver o céu direitinho. fazia muito tempo que eu não olhava assim para cima e perdia a conta de quantos pontinhos luminosos apareciam no meu campo de visão. eu quero botar seu nome naquela estrela. aquela pequenininha ali no canto, brilhando de azul claro e chamando meu nome. eu consigo ouvi-la chamando meu nome. você consegue também?

   eu vou ficar aqui olhando cada detalhe seu, e quando a gente for lá pra dentro eu vou pegar meus dedos gelados e vou desenhar uma estrela nas suas costas. depois vou escrever “eu te desejo” e tentar te fazer adivinhar palavra por palavra. mais uma vez, mais devagar. você vai descobrir a frase toda já na quinta letra e vai virar de frente pra mim. estrelas vão estar nos seus olhos e vou descobrir logo que são os meus olhos refletidos nos seus. meus olhos molhados, suados de vontade de você.

   eu te quero como os astronautas querem as estrelas. eu te quero brilhando no meu céu e quero agora. desço minha mão fria pelas suas curvas, você se arrepia toda e suspira no meu ouvido. você tem nome de estrela e eu quero ser astronauta pra poder viajar nos relevos do seu corpo nu.

   da próxima vez que a gente vier aqui eu te quero nua. eu imagino seus mamilos em primeiro plano com o sol se pondo como pano de fundo e a vontade que eu tenho é de encarnar um picasso por algumas horas. você assim morena com marca de sol combinando com todo esse ar amarelo e alaranjado que começa nas folhas secas do outono e vai se intensificando, junta o céu e a terra nesse crepúsculo dourado e me bota maluco. de repente a vontade que eu tenho é de parar o instante pra te ver de todos os ângulos ao mesmo tempo, um cubista naturalista abobalhado e encantado. porque você é minha obra-prima, e quando a gente chegar em casa eu vou tatuar meu nome com canetinha nos seus peitos redondos, você vai rir e meu mundo vai ficar mais belo.

   a verdade é que meu estômago reclama de fome e eu tenho medo de comer. eu tenho medo de comer e continuar com essa sensação de que há algo aqui dentro devorando as minhas entranhas. eu tenho medo de comer e descobrir que eu não estou com fome. tenho medo de descobrir que na verdade eu estou vazio. tenho medo de descobrir que eu me tornei uma pessoa vazia, que eu sou oco e que, mesmo que eu devore o mundo inteiro, nada vai mudar isso.

   o cheiro de alho torrado invade toda a casa. cheiros são assim atrevidos, como uma mentira sorrateira contada ao pé do ouvido. os cheiros se perdem no ar, vão dançando em espirais invisíveis e entram em todos os cantos. vão se contorcendo pelas frestas dos armários, se esfregando nas fechaduras das portas e nos corrimãos das escadas. o cheiro de alho torrado entra em meu quarto e eu imagino mamãe preparando o almoço com seu avental listrado de amarelo e vermelho. o elástico perdeu o jeito de uns tempos pra cá, mas mamãe não larga do avental. deve ser por lembrança. guarda o avental como souvenir de um tempo passado ou algo do tipo. mamãe tem essa mania de pensar no passado como fossem lugares físicos. ela conta do natal de noventa e oito como quem narra a primeira visita a paris ou as férias em itacaré.

   ela limpa as mãos sujas no avental e sente que suas mãos delicadas passaram no torso musculoso de meu pai, e ela fica feliz. meu pai gostava de alho torrado, eu acho. ele gostava muito de nada e um pouco de tudo, na verdade. foi ele quem comprou o avental para mamãe, cansado de vê-la estragar blusas de malha com respingos de gordura quente. papai nunca teve noção de cores, então ele deve ter pedido ajuda a alguma vendedora para escolher o modelo. ou nem escolheu, pegou o primeiro da gôndola e levou para minha mãe. mamãe achou lindo e resmungou em voz baixa que amarelo e vermelho eram suas cores favoritas. eu espiava da sala de jantar e via mamãe rindo a toa. mamãe costumava rir a toa.

   depois que meu pai teve um derrame as coisas ficaram difíceis. ele mal falava, e quando falava não fazia sentido algum. mamãe chorava diariamente, e o arroz passou a ter gosto de lágrimas salgadas. passados três meses papai teve um engasgo durante o sono e morreu. morreu tranqüilamente, pelo que os médicos disseram. por causa dos fortes remédios para dores ele possivelmente nem notou nada que estava acontecendo e morreu dormindo. por um tempo eu tive medo de que minha mãe também deitasse para dormir e lá ficasse. como se ela e meu pai fossem duas baterias de um mesmo rádio-relógio e sem um o outro não funcionasse.

   a presença do meu pai passou a invadir a casa. eu via sua cara nos móveis da sala, sentia seu cheiro nas almofadas e ouvia sua voz reclamando da duração dos comerciais na tv. meu pai passou a me seguir e eu me sentia bem com sua presença. eu sentia-o em todo canto, esparramando-se nos tapetes e prensado dentro dos eletrodomésticos. ouvia sua voz em cada locutor de rádio e nas pessoas que ligavam para nossa casa. acho mesmo que meu pai aprendeu com as comidas de minha mãe a ser assim. de tanto observá-la cozinhando e de tanto sentir pela casa os cheiros refogados, passou a imitá-los.

   é meu pai que vem junto do cheiro de alho torrado invadindo meu quarto, me pondo de pé e me chamando para o almoço. meu pai se esgueirando pelas janelas, se dispersando nas toalhas de rosto dos banheiros e nos envolvendo. minha mãe grita a prontidão do almoço, desço as escadas correndo e nós três sentamos à mesa mais uma vez.

cartela de cores

carteladecores

   hoje eu acordei amarelado. hoje eu botei os pés para fora da cama e senti que meu dia ia ser bege, enferrujado, envelhecido. as folhas do arranjo ao lado da televisão despertaram secas. olhei procurando verde-limão e encontrei oliva.

   meu café foi ralo para combinar com o amarronzado do meu pijama desfiado. meus dentes ficaram pintados de ocre e deram o tom que o pó desbotado em meu rosto pedia. passei pelos meus cabelos um pente desdentado e vi cair alguns fios cor de chá. chá de camomila, chá de maracujá, chá de pano de chão. meus cabelos foram amarelo-manga, hoje são poeira-lavada. minhas bochechas cintilavam de vermelho-sangue. agora o que me resta são os coágulos dentro das artérias, o bonina-varize nas batatas das pernas.

   eu olhava o mundo através de azul-turquesa, esmeralda, olho-de-gato. hoje minhas lentes são desbotadas. verde-água, fralda-usada, córrego sujo. tudo era nítido, tudo era claro. agora desceu essa névoa, e essa neblina faz a pedra mais escarlate virar rosa-bebê. meus cabelos perderam a cor, meus olhos perderam a cor, meu café perdeu a cor.

   minhas unhas crescem sujas de terra e eu fico cada vez mais com essa cor desbotada de argila. minhas mãos ficam enrugadas de frio enquanto o fogo que sai da lareira é cinza. eu sento nessa poltrona encardida, estico os braços para ler as notícias. meu corpo reclama de toda essa cartela de cores que eu me tornei e não há nada que eu possa fazer. hoje eu acordei amarelado e cercado de folhas secas. hoje eu acordei seco e cercado de folhas amareladas.

   nem parece que já é outono. hoje o dia amanheceu cinza, como se o sol tivesse decidido não brilhar direito ou como se a noite tivesse escolhido durar um pouco mais que o tempo que lhe é devido. o dia acordou cinza e com gosto forte de café velho. a garrafa repousada sobre a mesinha da cozinha me enganou e eu dei um gole grande naquela bebida fria sem açúcar. soltei a xícara sem pensar, meu café ecoou pelo piso azulejado e agora minha coleção de seis peças ficou debilitada. não é que eu receba com freqüência as pessoas para um lanche de fim de tarde, mas nunca se sabe. de qualquer forma, agora preciso contar com um a menos. agora preciso contar os cacos no chão da cozinha, embalá-los na seção de classificados do jornal de ontem e jogá-los fora como se fossem um excremento qualquer. como se todos esses retalhos nunca tivessem sido uma xícara de café, como se essa fosse uma manhã chuvosa qualquer e nada disso importasse. hoje o dia acordou meio dormindo, e eu não consigo fazer força suficiente para acordá-lo. hoje o dia amanheceu com cor de papel de jornal, com jeito de notícias de ontem e com cheiro de café velho esparramado no chão da cozinha.

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