eu não preciso mais de você. foi isso que ela disse, ou algo do tipo. não faz muita diferença. eu não te quero mais, só sinto desprezo por você, a gente não conversa como antigamente. é tudo a mesma coisa. era dezembro e chovia desesperadamente, as janelas ficavam constantemente sujas e o piso da sala de jantar sempre alagava. eu tinha comprado um presente de natal, uma caixinha vermelha com um grande laço roxo e um poeminha escrito às pressas. pra nada. não tive tempo de tirar o embrulho do armário antes que ela me lançasse aquela feição de quem passou por uma maratona de exercícios e não aguenta mais.
o que me enfeza é que ela parece esquecer. a memória é curta pra lembrar da tarde espantosamente longa de abril quando eu entrei no quarto e vi ela com um outro homem. assim, deitado em cima dela, como se ela fosse um sofá de dois lugares em um apartamento de copacabana com vista para o mar. ela com aquele olhar infantil pedindo perdão por ter quebrado meu vaso de porcelana favorito e eu fingindo que não era nada de mais. nunca é nada de mais. eu sempre aguentando as mesmas mesquinhezas, a minha falta de bom senso contra a falta de pudor dela. nos dias seguintes eu ficava deitado de costas na rede da varanda imaginando suas pernas abertas e um outro qualquer que gritava de felicidade.
será que eu sempre fui tão submisso? era eu quem tocava pour elise no piano enquanto ela descascava laranjas sentada no tapete. as frutas eram só dela, a música era de nós dois e de quem mais quisesse ouvir. eu perguntava se ela gostava e tudo o que ela fazia era acenar que sim. nenhum comentário, nenhum elogio. só um balançar de cabeça que não significava nada de mais. o barulho irritante da faca atritando contra a casca grossa das laranjas e minhas notas secas tentando se fazer ouvir. ela nunca ouviu nada que eu disse.
quando o inverno chegou eu já conseguia enganar minha memória. eu agora sei que eu sempre fui quieto demais, comedido demais. não que isso justifique a cara lavada que ela fazia quando eu perguntava de quem eram os cheiros no pescoço dela ou de onde tinham saído aqueles colares novos em folha. eu relevava essas coisas porque nessa época eu ainda achava que sentir formigamentos nas pontas do pés e ouvir o próprio estômago roncar eram sintomas de amor. sintomas, como em uma doença.
hoje eu sei que eu estava doente. eu via beleza nas dobradiças enferrujadas dos armários da cozinha e na cama velha sem lençol. quem eu tentava enganar? minhas costas doíam pelo peso imaginário que eu ja me cansava de carregar. eu criava histórias para mascarar a verdade. um engano para o homem nu, uma desatenção nas músicas tocadas, uma alergia constante ao encostar em mim.
eu não queria que ela continuasse comigo. o que eu queria de verdade é que eu tivesse tido a coragem de juntar minhas coisas e avisar com a cara tranquila de quem diz que colocou as roupas sujas para lavar que meu táxi estava me esperando na portaria. melhor, deveria ter mandado-a pegar suas coisas e ir para qualquer lugar. encontrar sua própria copacabana longe daqui, ou qualquer coisa do tipo. a questão é que eu jamais teria essa coragem. então eu continuo tocando o piano e escrevendo poeminhas apressados nos cartões de natal, porque é isso que eu sei fazer. eu sempre fui assim tão submisso.




